sábado, 19 de fevereiro de 2011

Imprensa em Foco

Data:16.02.11
Veículo:

O Globo

Em 2010, 44 jornalistas foram mortos no mundo

Brasil registrou uma morte; maior problema no país são ações judiciais para censurar reportagens, diz comitê
Tatiana Farah

SÃO PAULO. Em 2010, 44 jornalistas foram assassinados em todo o mundo, entre eles um no Brasil, segundo relatório do Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) (...)
(...)o coordenador sênior do CPJ para o programa das Américas, Carlos Lauría, informando que, em quatro anos, o narcotráfico no México matou 30 repórteres.
(...)- No Brasil, o pior é a censura judicial. Centenas de ações seguem na Justiça brasileira, buscando censurar coberturas de interesse público. O caso emblemático é o do senador José Sarney contra "O Estado de S.Paulo". Ele exemplifica os problemas que a imprensa brasileira tem para cobrir temas sensíveis e de claro interesse público. As decisões são tomadas principalmente por juízes de primeira instância, mais suscetíveis às pressões - disse Lauría.(...)

E S C L A R E C I M E N T O

O Globo publica carta que corrige informação de fonte utilizada pelo jornal

Com referência à matéria "Em 2010, 44 jornalistas foram mortos no mundo" (16/2), informo que o sr. Carlos Lauría não expressou a verdade ao declarar que o senador José Sarney teria imposto censura judicial ao jornal "O Estado de S. Paulo". Talvez tivesse sido sua intenção referir-se ao sr. Fernando Sarney, filho do presidente do Senado, que no decorrer do segundo semestre de 2009 abriu e desistiu de ação contra o referido jornal. Vale, de qualquer modo, renovar o teor de nota divulgada por esta secretaria, em agosto daquele ano, na qual o presidente José Sarney declara: "Não fui consultado sobre essa iniciativa, de exclusiva responsabilidade dele, Fernando Sarney, e de seus advogados, e por isso é uma distorção de má-fé querer me responsabilizar pelo fato."

Pedro Luiz Rodrigues

Secretário de Imprensa da Presidência do Senado


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Comentários do "Amapá no Congresso"

Ataques ao principal aliado de Lula no Congresso: contradições insolúveis

A crise chegou à imprensa mundial há algum tempo. Com falta crônica de crédito e o crescimento da rede mundial, mudanças preocupantes estão ocorrendo. Veículos tradicionais, como o Le Monde, o Washington Post, o The New York Times, The Economist e El Pais , estão sem liquidez até para pagar empregados. É a realidade batendo à porta da “liberdade de expressão” fajuta dos grupos empresariais . E o irônico é que quase todas estas publicações foram justamente apologistas da desregulamentação dos mercados mundiais, fator principal da atual crise financeira. O fato é que estão sem anunciantes. E os anúncios representam mais de 80% de seus faturamentos. O valor das vendas nas bancas, como no Brasil, há muito não significa quase nada, menos de 2%.


A crise está também no Brasil


Por aqui, como divulgado por Izabela Vasconcelos e Anderson Scardoelli, do site Comunique-se, o jornal O Estado de S. Paulo surpreendeu seus jornalistas nesta quarta-feira (16/2) com a demissão de 22 profissionais, tanto da versão impressa, como no online. O diretor de conteúdo do Grupo Estado, Ricardo Gandour, explicou que as demissões foram motivadas por redução de custos. “É um enquadramento nas metas orçamentárias. Foi um ajuste que já vinha sendo feito no Grupo. Já tivemos no JT e agora no Estadão e estadão.com", afirmou. Isto explica em parte porque o jornalão vem apelando para manchetes e matérias sensacionalistas e sempre sem qualquer cuidado com as fontes e a qualidade dos textos. A outra parte da explicação é decorrente da primeira. A decadência financeira vem fazendo o jornal cair numa certa “prostituição” político-financeira-ideológica. Está tendo a necessidade desesperada de transformar seu conteúdo em panfletos para políticos e grupos econômicos cada vez mais, jogando sua tradição e sua credibilidade no esgoto. E tudo isso acontece justamente quando a imprensa tradicional em todo o mundo vem sendo desacreditada e superada pelos internautas de redes sociais, blogs, etc. O alvo principal do “Estadãozinho” não poderia ser outro: José Sarney, que há muito vem apoiando o projeto Lula/Dilma.

Os alvos: Lula, Dilma e Sarney

Sarney, o homem que viabilizou, sem qualquer apoio, a transição democrática e garantiu, como nunca, plena liberdade de expressão. Não se pode esquecer que, ao garantir a liberdade sindical e não aceitar repressão aos trabalhadores, foi bombardeado pela imprensa de então que, em análises sempre simplistas e descontextualizadas, passava a imagem de que a explosão reivindicativa dos trabalhadores era coisa do Sarney, o cordeiro que necessariamente tinha que ser imolado, sempre. Fenômeno típico do sistema presidencialista. Depois de anos de repressão violenta contra os trabalhadores e os sindicatos, o País foi sacudido por uma ampla onda de greves (mais de duas mil), capitaneadas pela CUT e pelos petistas nada moderados de então, mal começava o novo governo, o primeiro civil em muitos anos. As diversas negociações entre grevistas, patrões e governo deixaram claro que a realização de um “pacto social”, defendido pelo Presidente, seria bastante delicado e difícil de acontecer, mas, em momento algum o governo deixou de negociar e mediar os conflitos através das juntas de conciliação promovidas pelo ministro do Trabalho, Almir Pazzianoto. Para atender e responder aos jornalista que lhe atacavam, Sarney chegou a montar, pela primeira vez, uma sala de imprensa no Planalto. Criou-se, também, naquele período turbulento, por determinação do Presidente Sarney, a cultura da negociação entre patrões e empregados e instituiu-se, definitivamente, a Justiça Trabalhista, com enorme eficiência devido à criação de centenas de Juntas de Conciliação e Julgamento. Foi uma área em que o governo atuou com grande e sensível competência, tanto política quanto jurídica. Mas, na mídia, nada foi mostrado como deveria. Ou seja, mostrava-se o problema, mas não as soluções e os esforços assumidos. Mas, a todos os movimentos grevistas, incluídas duas tentativas fracassadas de greves nacionais, o democrata Sarney reagiu com paciência, estimulando patrões, empregados e integrantes do governo a administrarem democraticamente esse fenômeno inerente às economias industrializadas, preparando o terreno para a adoção das regras que hoje se encontram cristalizadas no art. 9° da Constituição de 1988 e na Lei n° 7.783, que sancionou em 28 de junho de 1989. Como conseqüência natural da política de abertura adotada em relação às greves, o governo também se comportou de forma marcadamente liberal no tocante ao reconhecimento de entidades sindicais. Pois, é bom lembrar que, até a promulgação da Constituição dei 988, o ministro do Trabalho dispunha de poder discricionário em matéria de legislação sindical. Prevaleciam, portanto, as antigas disposições da CLT relativas a esta matéria, especialmente aquelas constantes do Título V. Mas, desde aquela época, a falsa imprensa aliada às poderosas corporações transnacionais do Eixo Rio/São Paulo - e que nunca aceitaram as políticas de Sarney para acabar com as desigualdades sociais e regionais -, não deixou o homem em paz. É este o José Sarney, o mesmo que, pacientemente, durante os dois últimos anos, respondeu item por item a absolutamente todas as acusações que lhe imputaram. Respostas que, aliás, nunca foram publicadas pelo jornalão paulista. O lamento geral dos jornalistas sérios que cobrem o Congresso é de que o “Estadão”, que já foi considerado um dos mais sóbrios e sérios veículos, perdeu de vez qualquer veleidade ética e pudor jornalístico. Consideram que a diminuição das vendas e a perda de publicidade o estão levando a uma posição exageradamente apelativa e vinculada demais com interesses políticos específicos.


A hipocrisia da autocensura bastante lucrativa

O motivo maior das críticas é o espaço reservado pelo “O Estado de São Paulo” para uma espécie de calendário que conta o tempo em que o jornal estaria sendo “censurado”. Considera-se que tal posição mostra que a questão se tornou ou um recurso eficiente e desesperado de se aumentar as vendas do jornal ou, pior, uma forma de chantagem política muito bem paga, que estaria vinculada aos interesses da oposição em enfraquecer a então candidatura Dilma. A avaliação é de que a tese da “censura” não cola e que o jornal é que vem impondo uma autocensura bastante pragmática para se manter o foco em Sarney, principal responsável pelo apoio do PMDB ao governo e à candidatura Dilma. Desde 29 de janeiro de 2010, aguarda-se definição judicial sobre o processo que impede a irresponsabilidade do jornal de divulgar informações em segredo de justiça sobre a Operação Boi Barrica. O jornal foi proibido pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJ-DF), em 31 de julho de 2009, de noticiar fatos relativos à operação da Polícia Federal, pelo simples fato de que as informações foram obtidas de forma ilegal e ilegítima. O que vem causando desconforto por parte de muitos profissionais da imprensa é que, mesmo amparado pela Constituição e pela Justiça - e não querendo fazer o jogo propagandístico do jornal -, em 18 de dezembro daquele ano Fernando Sarney entrou com pedido de desistência da ação contra o Estadão. Mas o jornal não aceitou o arquivamento. Claro que não, pois acabaria com o jogo de cena. Mas, a atitude de Fernando Sarney demonstrou que a pretensa “censura” era, realmente, uma autocensura do jornal para se fazer de vítima. Prova disso é o fato de que, no dia 29 de janeiro, o advogado Manuel Alceu Affonso Ferreira apresentou ao TJ-DF manifestação em que sustentava a preferência ansiosa do jornal pelo prosseguimento da ação. Muitos do meio jornalístico andam preocupados com a consequências para a democracia. Teme-se que posições irresponsáveis como as do Estadão possam alimentar a ideia na população de que Lula estava certo, quanto criticava a parcialidade desmedida dos principais veículos de comunicação contra ele. Mas, casos como esses trazem reflexões importantes que foram discutidas na 5ª Conferência Legislativa sobre Liberdade de Imprensa, no ano passado, promovida pela Câmara: a existência da Internet e das redes sociais poderão fazer frente aos veículos tradicionais? Como e em que dimensão? Até que ponto a democracia representativa poderá melhorar ou piorar diante das novas tecnologias empregadas na comunicação? As instituições e os jornais estão preparados para enfrentar esses novos desafios? Os poderosos donos de jornais e suas manipulações, em contraste com as informações diretas das redes sociais, podem levar a população a apoiar ideias totalitárias ou uma concentração de poderes em líderes carismáticos? Estas são questões importantes a serem debatidas sempre.

Said Barbosa Dib, historiador, analista político e assessor de imprensa




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